4. Técnica – Como chegar perto das aves

Como chegar perto das aves para conseguir boas fotografias?

Em primeiro lugar convém saber que, mesmo com teleobjectivas muito potentes, é necessário chegar perto das aves para conseguir fazer boas fotografias. O quão perto depende evidentemente da teleobjectiva, mas também do tamanho da espécie de ave. Por exemplo, com uma objectiva de 500mm com teleconversor 1,4x numa câmara APS-C, uma cegonha pode fotografar-se bem a uns 50 metros. Mas, para um pardal, uma distância de 15 m já deve ser considerada como “um bocadinho longe”. É sempre preciso sabermos como chegar perto.

Há aspectos do comportamento das aves que variam de espécie para espécie. Há espécies muito tímidas e ariscas; outras só se podem descrever como descaradas. Mas, há alguns traços de comportamento que são comuns e que passaremos a referir.

Em primeiro lugar, é fácil constatar pela experiência que a melhor forma de chegar perto das aves é deixar que sejam elas a aproximar-se de nós. Tomemos como exemplo o melro que actualmente é muito comum, mesmo nas grandes cidades.  Se estivermos sentados num banco de jardim é muito provável que algum apareça e se aproxime até muito perto de nós. Mas, se avistarmos um melro ao longe e nos quisermos aproximar, caminhando directamente na sua direcção, é quase certo que ele foge antes de estarmos a uma distância boa para fotografar.

Em segundo lugar, é também fácil de verificar que as aves se afugentam com movimentos bruscos, que tendem a fugir quando olhamos para elas e que não gostam nada de ver uma objectiva ser virada na sua direcção. Tomemos como exemplo o tal melro no jardim que se aproximou do nosso banco e que anda por ali a saltitar descaradamente. Se tivermos uma câmara na mão e a virarmos na sua direcção, teremos de o fazer muito disfarçadamente, com movimentos muitos lentos, se queremos ter alguma hipótese de que ele não fuja.

Mostra ainda a experiência que se usarmos vestuário de cores escuras e se tivermos vegetação ou terreno atrás de nós de modo a evitarmos que a nossa silhueta se destaque no horizonte teremos mais possibilidades de êxito do que se usarmos cores berrantes e se nos colocarmos em posições destacadas. Neste aspecto, o trajo camuflado é o mais eficiente, mas, em muitos casos, não é indispensável.

Usar o carro como abrigo

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Usando o carro como abrigo. Rede camuflada na janela encobre o fotógrafo. Lente Canon EF 500mm f4.0; suporte de janela Kirk com cabeça Wimberley.

As aves precisam de se defender dos predadores. Por isso, sabem reconhecer um quando o vêem. Aproximar-se das aves directamente afugenta-as; mas, também as afugenta aproximar-se com um comportamento que elas reconheçam como sendo o de um predador.

Há cerca de 40 anos, a minha lente com maior distância focal era uma Pentax de 200mm. Estava na Lagoa dos Salgados e avistei ao longe um bando de carraceiros. Parei o carro e saí, andando abaixado junto ao solo, procurando aproximar-me despercebido. Passados poucos metros de avanço os carraceiros fugiram. Regressei ao carro e esperei. Passados alguns minutos voltaram. Repeti a minha tentativa de aproximação, ainda com mais cuidado, mas obtive o mesmo resultado. Mandei então mentalmente os carraceiros para um sítio feio e avancei muito descontraidamente com o carro tendo como certo que os carraceiros iriam fugir. Para meu grande espanto, as aves que tinham fugido de mim a pé, aproximando-me agachado e procurando esconder-me, não fugiram quando o carro se aproximou caminhando calmamente pela estrada fora a descoberto. Experiências deste tipo têm-se repetido inúmeras vezes, e tenho lido sobre este comportamento em muitos livros sobre fotografia de aves. As aves não associam um automóvel a um predador ou, pelo menos, não tanto como associam a imagem de um homem.

É muito mais fácil aproximarmo-nos das aves de carro do que a pé. É o que se pode chamar uma técnica de abrigo móvel. A aproximação deve ser feita devagar, e a paragem para fotografar deve ser o mais suave possível. É bom termos algum tipo de camuflagem tapando o pára-brisas e as janelas. Umas redes de camuflagem são excelentes para esse efeito. A câmara já deve estar em posição quando chegamos perto das  aves e devemos evitar qualquer movimento rápido com a câmara, com as mãos ou com a cabeça. Devemos tentar aproximar o carro de forma a conseguir bom ângulo para fotografar sem ter de fazer manobras estranhas que possam afugentar a ave; muito cuidado com os ruídos. Com um carro de todo terreno as possibilidades de trabalho estendem-se para fora das estradas. No nosso caso, como somos dois a fotografar guarnecemos duas janelas. Uma janela de cada lado ou duas do mesmo lado, conforme as circunstâncias. Têm aqui aplicação os suportes de janela referidos no ponto 1.1.3 destas notas técnicas (ver imagem acima). Também é comum usarmos o carro como abrigo estático esperando parados que as aves apareçam. Neste caso pode cobrir-se o carro com uma rede camuflada.

Muitas das fotos que apresentamos neste site foram feitas a partir das janelas do nosso carro. Pode-se mesmo dizer que há locais em que esta será a técnica mais aconselhável; Ponta da Erva, no Estuário do Tejo, por exemplo.

Outros abrigos

Há diversos tipos de abrigos, alguns permanentes, outros do tipo tenda que se montam e desmontam para uma dada ocasião, outros ainda do tipo abrigo leve tais como cadeira-abrigo, capa-abrigo,etc.

Actualmente existem destes abrigos tipo tenda de montagem rápida, com aros metálicos incluídos que garantem uma instalação quase instantânea. Já para os dobrar e guardar é preciso mais algum esforço e alguma prática para “apanhar o jeito” de “fazer o oito” (ver as instruções dos abrigos).

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Abrigo tipo tenda de montagem rápida, com a objectiva Canon EF 500mm f4.0

Dentro deste abrigo podem fotografar uma ou duas pessoas. Usam-se tripés e cadeiras de lona dobráveis. Convém escolher cadeiras cómodas.

As cadeiras-abrigo são, como o nome indica, cadeiras articuladas com uma estrutura que monta juntamente com a cadeira um pequeníssimo abrigo individual ; ver, por exemplo, na Fotocamo. Eu nunca experimentei. As capas-abrigo são capas camufladas que se põem sobre a cabeça e sobre a câmara no tripé para permitir esconder-nos são simples e eficientes. Mas, o mais simples de tudo, e talvez o mais prático neste tipo de abrigos, é usar usar numa cadeira de lona para nos sentarmos, com uma rede camuflada sobre a cabeça e outra sobre a câmara de modo a cobrir o mais possível o fotógrafo e o seu equipamento.

Existem também os abrigos permanentes, que se montam num determinado local para uma exploração de longo prazo. Alguns têm um vidro espelhado que permite ver para fora do abrigo mas que impede que as aves vejam para o interior. Outros têm orifícios com mangas para inserir as objectivas. Há vantagens e inconvenientes nos dois sistemas. O vidro permite um maior isolamento dos fotógrafos, uma vez que, desde que se usem trajos escuros, nada se vê para o interior. Além disso, isolam o ruído de disparo das câmaras, o que pode ser muitíssimo importante no caso de espécies mais ariscas, como as aves de rapina, as gangas e cortiçóis, etc. Tem o defeito de escurecer um pouco a imagem (talvez o equivalente a um diafragma) e de introduzir, por vezes, uma tonalidade pouco natural na fotografia, que tem de ser corrigida em pós-processamento. Existe também alguma perda de nitidez, mas que é pouco perceptível. Várias fotografias de gangas, quebra-ossos, outros abutres e milhafres-pretos que aparecem nesta página foram tiradas através de vidros espelhados.

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Vista através do vidro espelhado de um abrigo para fotografia de abutres, designadamente do quebra-ossos
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Máxima segurança; vidro espelhado e rede de camuflagem

Alguns destes abrigos para uso público são verdadeiros anfiteatros para fotografar aves, com vidros muito amplos, com excelentes cadeiras e com todas as comodidades, incluindo mesmo, nalguns casos, uma pequena divisão com uma sanita química.

Com estes abrigos que são fixos, é necessária alguma forma de atrair as aves. As aves podem ser atraídas com comida, com água ou, nalguns casos, pelo som.

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Vista do interior de um abrigo para gangas. As pegas estão muito perto de nós sem terem qualquer receio e sem detectarem minimamente a nossa presença.
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Vista através do vidro espelhado de um abrigo para fotografia de pica-paus e passeriformes. Pode ver-se um pica-pau-malhado no tronco da árvore.

Estas formas de atrair aves variam de espécie para espécie. São assuntos difíceis e que necessitam de muita experiência para serem usados com eficácia e sem prejudicar as aves. A segurança e o bem estar das aves devem ter prioridade em relação à fotografia.

Um livro interessante sobre este tema é The Photographers Guide to Attracting Birds, por Alan Murphy, 2012, em .pdf.

Algumas espécies, passeriformes, por exemplo, podem ser atraídas simplesmente com alguns pedacinhos de pão ou com algumas sementes adequadas. Em muitos abrigos permanentes para passeriformes, alguns de utilização paga, junta-se a distribuição de sementes com a disponibilidade de água, para atrair as aves para poleiros ou para um charco a uma distância de menos de uma dezena de metros. Permitem fazer facilmente fotos excelentes deste tipo de aves.

Nos meses mais quentes, em zonas secas, podem atrair-se aves simplesmente usando um pedaço de plástico (por exemplo dos sacos de lixo) para fazer uma poça de água no chão.

Um método cómodo e eficiente para atrair algumas espécies é o som. Usam-se gravações do som de determinada espécie para a atrair. O método é especialmente eficaz na época do acasalamento. Resulta especialmente bem para muitos passeriformes,  para aves aquáticas, etc.

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Altifalante iHunter by Ruger com recepção por Bluetooth

Actualmente o procedimento mais cómodo é ter as faixas com os sons gravadas no telemóvel ou tablet e usar um altifalante sem fios ligado por bluetooth para reproduzir o som.

Um altifalante, com recepção por bluetooth, que é particularmente potente e adequado a esta função é o iHunt by Ruger, que se pode mandar vir pela internet.

Este procedimento de atrair as aves com som não pode ser usado em excesso, porque pode induzir stress nas aves. Usado com ponderação é inofensivo e pode ser muito eficiente.

Deve começar-se a tocar o som da espécie que se procura e quando ela se aproxima deve baixar-se o som para a fazer aproximar, mantendo-se calma. É indispensável desligar o altifalante quando a ave está quase a localizá-lo.

Nalguns casos os resultados são excessivamente bons, como pode ver-se na figura. Uma carriça atraída pelo som foi poisar no altifalante apesar deste já estar desligado. Não era bem esta a fotografia que eu pretendia.

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Uma Carriça, atraída pelo som, foi poisar num altifalante iHunter, apesar deste já estar desligado.

Há várias formas de obter gravações com o som das aves, designadamente:

  • Guía Sonora de las Aves de España, F. Llimona, E. Matheu, J. Roché, 3 Cds;
  • Tous les oiseaux d’Europe, Jean C. Roché, 4 CDs;
  • The BIRD SONGS of Europe, North Africa and the Middle East, 819 Species, 17 audio CDs or 2-mp3-Discs.

As gravações de Espanha resultam muito bem, mas têm um pequeno senão. Cada faixa, correspondente a uma dada espécie começa pela dicção do nome da ave em espanhol. Isto impede a utilização da faixa em repetição como é adequado para a atracção de aves. Para evitar este problema é necessário utilizar um programa de edição de audio e eliminar esta parte inicial das gravações.

 

 

1 opinião sobre “4. Técnica – Como chegar perto das aves”

  1. Espetacular. Desconhecia os vossos dotes nesta área, uma revelação muito agradável para mim. Para quando umas captações do priôlo no Nordeste (S. Miguel?)

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