6. Técnica – Vamos evoluindo !

 

Já lá vão três anos desde que escrevemos o artigo sobre técnica “Como ajustar a câmara”. Parece ser boa altura para apresentarmos um novo artigo, com uma descrição mais actual dos procedimentos técnicos que adoptamos para a fotografar aves.

Vamos optar por um estilo algo coloquial e deixar as ideias aparecer como as cerejas, sem grande preocupação de ordem e sistematização.

Para equipamento digital, três anos é muito tempo. Entretanto apareceram novas câmaras, surgiram novas modas e criaram-se novos hábitos.

Nós também mudámos e alterámos um pouco os nossos métodos de fotografar, passando a recorrer com mais frequência a abrigos profissionais. Isso foi tido em linha de conta na escolha de uma nova câmara.

Um enorme bando de estorninhos sobrevoa uma lagoa em El Taray. Foto realizada a partir de abrigo para grous.

Pensámos que, para a fotografia de abrigo, em que estamos em geral perto das aves, o aumento de “alcance” proporcionado pelo formato do sensor APS-C não seria uma grande vantagem. Poderíamos portanto optar por uma câmara “full frame” e aproveitar a melhor qualidade de imagem, especialmente nas sensibilidades elevadas. Teríamos de continuar na Canon, para manter a compatibilidade de equipamento e também para não ter de alterar os nossos hábitos de trabalho. A escolha foi fácil e recaiu sobre a Canon EOS 5 D IV.

Passámos, portanto a utilizar a EOS 5 IV conjuntamente com a EOS 7D II. Geralmente utilizamos a 5D IV com a objectiva Canon EF 500mm F4, por vezes com tele-conversor. Na 7D II montamos uma Sigma 150-600 C. As duas câmaras têm comandos muito semelhantes, o que nos facilita muito a vida. Na fotografia de abrigo, em que esperamos que as aves apareçam muito próximo, não utilizamos a 500mm. Em muitos desses casos, as aves vêm poisar a uma distância que é inferior ao limite de focagem da nossa EF 500 mm F4. Nestes casos, a objectiva Sigma 150-600 mm passa para a 5D e a 7D é equipada com uma Canon 100-400 mm que temos há muitos anos e que continua a cumprir as suas obrigações.

Um Pisco-de-peito-ruívo vem poisar sobre a cobertra do vido do abrigo, a meio metro de nós. Muitas vezes vêm mesmo junto ao vidro onde admiram o seu reflexo. Fotografia com o telémovel.

Antes de sair para fotografar, geralmente de véspera, introduzimos algumas alterações nos registos personalizados de ajustes C1 a C3 das duas câmaras. Temos em atenção aquilo que esperamos vir a encontrar no início da sessão fotográfica do dia seguinte.

É frequente, por exemplo, saber que a sessão vai começar muito cedo, ainda com pouca luz, porque se trata de espécies madrugadoras (açor, pica-pau-preto, etc.). Nestas condições convém ter as câmaras previamente ajustadas. Não é cómodo estar a proceder a todos os ajustes, ainda de noite cerrada, num abrigo acanhado em que não se podem usar luzes.

Sierra de San Pedro, abrigo para Águia-de-Bonelli. Á hora em que chegamos ao abrigo ainda está muito escuro. Fotografia de telemóvel

Uma outra questão a ter em conta para o inicio da sessão é o ruído da câmara a disparar. Para aves muito sensíveis ao ruído, pode ser útil começar com as câmaras em modo silencioso, uma possibilidade que actualmente existe nas nossas duas câmaras e que permite reduzir muito o ruído de disparo à custa da redução no ritmo da rajada.

Os ajustes que escolhemos para as duas câmaras são diferentes. Na 5D, com sensor “full frame”, é preciso fechar um pouco mais o diafragma para conseguir focar toda a ave quando ela está muito perto. A 7D, com sensor APS-C, tem maior profundidade de foco para a mesma abertura. Além disso, podemos utilizar sensibilidades com maiores valores de ISO na 5D do que na 7D, uma vez que, nesta última, é maior o ruído digital nas sensibilidades elevadas.

Fotografando uma Águia-de-Bonelli a partir de abrigo em Atenor, Trás-os-montes. Fotografia realizada com o telemóvel

Continuamos a usar as câmaras preferencialmente no modo Av (prioridade à abertura), sendo a abertura ajustada directamente pela comando rotativo junto ao botão de disparo que é facilmente manobrado pelo indicador ou dedo médio. Este procedimento permite uma resposta muito rápida ajustando a abertura, de foto para foto, conforme precisamos de menor ou maior profundidade de campo (vários planos) ou, ainda que indirectamente, de menor tempo de exposição (sujeitos em movimento).

Já houve um tempo em que quem não fotografava em modo completamente manual era considerado um incompetente fotográfico. Pensamos que a experiência terá demonstrado que, na maioria dos casos, não será esse o método mais rápido de conseguir ajustar adequadamente a câmara para fotografar aves na natureza.

Mais recentemente, surgiu a moda de fotografar em manual utilizando o ISO automático. Temos lido em várias revistas alguns fotógrafos profissionais a defender este método.

A ideia parece boa, e permite, de facto, uma resposta muito rápida. Consideramos que pode ser uma solução adequada para quem está a usar a câmara segura na mão. Mas, no caso de usarmos a câmara no tripé, podemos facilmente adoptar obturadores mais lentos, eu diria mesmo, muito mais lentos do que a regra do inverso da distância focal (fotografar no mínimo a 1/500 com uma lente de 500mm). Ora, as câmaras não sabem que estamos a utilizar tripé e, se estivermos a usar o ISO automático, seleccionam valores de ISO muito superiores ao que seria necessário. Vamos por isso, obter fotos com menor qualidade de imagem do que se seleccionarmos o ISO manualmente e usarmos o modo Av para manter as reacções rápidas.

A única altura em que usamos o ISO automático é no início de sessões com muito pouca lu em que precisamos de uma resposta muito rápida nas espécies que surgem logo nas primeiras luzes do dia, numa hora em que a luminosidade se modifica muito em pouco tempo.

Depois dessas horas, à medida que vamos tendo mais luz, ajustamos a sensibilidade para um valor de ISO que garanta boa qualidade de imagem com os ajustes de exposição que pretendemos. Para não estar sempre a refazer os ajustes, de tempos a tempos, gravamos as nossas escolhas nos registos C1 a C3.

Na posição C1 registamos os ajustes para fotografar as aves poisadas e com pouca acção (baixa sensibilidade, privilegiando a qualidade de imagem, focagem no ponto central). A posição C2 é para as aves em voo ou que estando poisadas estão com muita acção (maior sensibilidade maior velocidade do obturador, foco numa zona estendida). Na posição C3 registamos usualmente, ajustes semelhantes a C1 ou a C2 mas com algumas diferenças que as circunstâncias levem a prever como úteis, modo silencioso, por exemplo.

A alteração de C1 para C2, e vice versa, é quase instintiva e pode ser feita nuns segundos.

Juntamente com o modo Av, utilizamos muito frequentemente a compensação de exposição, que introduzimos com o comando na parte posterior das câmaras. Alguns exemplos de casos em que pensamos que esses ajustes são fundamentais:

  1. para evitar “queimar ” os brancos na plumagem das aves com luz directa (correcção para);
  2.  para “abrir” os negros na plumagem das aves dessa cor ou semelhante (correcção para +);
  3.  para compensar fundos muito claros ou muito escuros, o sentido da correcção depende do que se pretende obter na fotografia em relação à exposição para a ave e para o fundo.
Abrigo de Melro-de-água, um caso em que tivemos de fazer fotografia de acção com pouca luz. Fotografia efectuada com o telemóvel

Trabalhamos sempre em RAW + JPEG. O JPEG permite-nos  identificar e seleccionar facilmente as imagens que nos interessam, mesmo com software que não “entenda” o RAW. Consideramos que registar sempre em RAW é fundamental, não só para corrigir algumas imperfeições na exposição, mas fundamentalmente, para conseguir extrair duma imagem tudo aquilo que ela nos pode dar.

Utilizamos cartões de memória de 128 Gbytes. Parece ser uma capacidade suficiente para evitar estarmos sempre a mudar de cartões. Todos sabemos que a mensagem “full card” aparece muitas vezes quando estamos a fotografar uma cena de acção interessante que não gostaríamos de perder. No entanto, pensamos que com as nossa câmaras actuais, utilizar cartões com ainda mais capacidade, corresponderia a “pôr todos os ovos no mesmo cesto”.

Utilizamos a mudança automática de cartão e não fazemos duplicado nas câmaras. Em 16 anos de fotografia digital, com muitos e muitos milhares de fotos, nunca nos falhou um cartão. Usamos cartões rápidos de marcas tidas como reputadas.

Só em casa fazemos a transferência para computador e, depois de eliminarmos a maior parte das fotos inúteis (sempre muitas), fazemos dois backups e formatamos os cartões para utilização posterior.

Ainda que nunca nos tenha falhado nenhum cartão, já tivemos problemas para recuperar imagens. Foi, ao fazer uma daquelas coisas que digo sempre que se devem evitar: apagar imagens na câmara. Apanhámos um susto, porque algumas das imagens que apaguei por engano eram importantes. No entanto, tudo se resolveu com facilidade utilizando um programa adequado que obtivemos gratuitamente pela net.

Recentemente têm vindo a estar disponíveis, por vezes a preços acessíveis, máquinas de grande qualidade de sistema não reflex DSLR (Digital Single Lens Reflex). A ideia é simples e correcta. Se eliminarmos a necessidade do visor óptico e do espelho que usamos nas DSLR para vermos a imagem através da lente, podemos conceber máquinas mecanicamente muito mais simples e, portanto, mais rápidas, mais pequenas e mais baratas. Há também uma possibilidade interessante de conseguir ópticas com melhor desempenho, menores dimensões e/ou mais baratas.

Pensamos que vai ser esse o caminho e que as máquinas “mirrorless” (sem espelho) vão no futuro substituir com vantagem as “DSLR”. Pensamos que isso irá ocorrer dentro de um prazo relativamente curto. Já é um facto para a fotografia de paisagem. Provavelmente será também verdade, dentro de pouco tempo, para quase todos os outros tipos de fotografia, incluindo a fotografia de desporto e a da vida selvagem.

Ainda não tivemos oportunidade de experimentar nenhum desses sistemas numas sessões de fotografia de aves. Ainda assim, apenas pelas especificações técnicas e pelos testes que temos lido, podemos atrever-nos a afirmar que as “mirrorless” estarão quase lá, mas ainda não chegaram a ultrapassar as DSLR para este tipo de fotografia..

No entanto, as possibilidades futuras já vão estando à vista e são impressionantes. Por exemplo, uma máquina actualmente existente, de formato 4/3, de uma marca de excelente qualidade e tradição, permite activar o registo de imagens em sequência rápida num “buffer”, mesmo ainda antes de premirmos o disparador. Quando disparamos, a máquina regista as 35 imagens “ANTERIORES” e as 64 posteriores ao disparo.

Quer isto dizer: poderemos vir a acabar com as muito interessantes fotos, que todos tão bem conhecemos, do poleiro vazio, de onde a ave acabou de sair. Poderemos seleccionar facilmente de entre as múltiplas imagens de que passaremos a dispor, de modo totalmente automático, quase sem possibilidade de falha, das várias fases de uma ave a levantar voo.

Este é apenas um exemplo do que estas câmaras poderão vir a fazer num futuro próximo e que seria, evidentemente, impossível com uma DSLR (não havia mecanismo de disparo mecânico que tolerasse estar, digamos 10 minutos, a fotografar a 20 ou 30 imagens por segundo).

Vamos portanto esperar. Achamos que já faltará pouco.

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