2. Técnica – Como ajustar a câmara

Como ajustar a câmara fotográfica para fotografar aves? Usaremos como exemplo a Canon EOS 7D MkII.

Admitimos que quem nos lê conhece o ABC da fotografia, que sabe o que é exposição, abertura, velocidade do obturador, sensibilidade, etc. Como é evidente, no que se segue dou a minha opinião. Haverá outras eventualmente melhores.

Em geral, para fotografar aves escolhe-se ter a câmara no modo Av, isto é, em exposição automática com escolha da abertura. Para conseguir a maior velocidade de obturação usa-se a máxima abertura da lente ou algo próximo disso. Esta é a forma de evitar fotos tremidas devido ao movimento da câmara e de poder “congelar” os movimentos da ave. É também a forma de obter um belo fundo desfocado para realçar a ave em primeiro plano.

No entanto, com teleobjectivas de 500 ou mais a profundidade de foco na abertura máxima (f4.0, por exemplo) é muitíssimo pequena e corre-se o risco de focar a cabeça da a ave mas deixar a cauda desfocada. Para evitar isso, é melhor fechar um pouco mais o diafragma, de modo a obter um pouco mais de profundidade de foco (f5.6 ou mesmo f8.0). Em Av mudar a abertura é muito fácil. Basta rodar com o dedo indicador o botão junto do disparador, enquanto se observa pelo visor a abertura que estamos a introduzir. No caso de se pretender muita profundidade de foco, por exemplo, para conseguir focar simultaneamente duas aves a distâncias um pouco diferentes, deve fechar-se ainda mais o diafragma para f22 ou mesmo mais. Nesse caso, a velocidade de obturação diminui consideravelmente e há o risco de as fotos ficarem tremidas quer devido a movimentos da câmara quer porque a ave se move. As aves têm frequente movimentos muito rápidos. É fácil aparecerem fotos tremidas devido ao movimento das aves quando utilizamos velocidades inferiores a 1/125 s. É por isso bom fazer várias fotos seguidas, para aumentar as probabilidades de sucesso. Devemos também ter a noção que, mesmo com uma abertura muito pequena, a profundidade de foco com estas teleobjectivas é sempre muito reduzida.

Existem duas opções para fotografar simultaneamente duas aves em planos diferentes:

a) Procurar focar as duas aves. Nesse caso têm de ficar as duas completamente bem focadas.

b) Focar apenas uma (em geral a mais próxima). Nesse caso a ave desfocada deve ficar claramente desfocada.

A opção intermédia, com a ave em segundo plano mal focada, em geral, não resulta esteticamente.

Usa-se quase sempre o sistema de auto-foco AF. Para aves pousadas a melhor escolha é usar apenas o ponto central que é um ponto de AF muito eficiente. Com mais pontos de focagem activos corre-se o risco de a câmara focar outras coisas em vez da ave; troncos de árvore, vegetação ou o solo. Deve procura garantir-se uma focagem perfeita dos olhos da ave. Em caso de necessidade podem fazer-se pequenos ajustes com focagem manual, bastando para isso rodar o anel de focagem da objectiva. Pessoalmente, uso a câmara configurada com o botão de focagem separado do botão de disparo. Uso o botão * na parte de traz da câmara ao alcance fácil do polegar.  Com esta configuração, para fazer uma foto aponta-se a lente para o objecto, prime-se o botão * e a câmara faz a focagem. Depois pode-se esperar pela acção que nos interessa ou variar o enquadramento sem tornar a focar. Ao premir o disparador tira-se imediatamente a foto, sem que a câmara volte a procurar focar. É necessária alguma habituação a este procedimento. Mas  a sua adopção compensa amplamente.

Como é fácil de entender, os ajustes mais adequados para fotografar aves poisadas e aves em voo são diferentes. Vamos, por isso tratá-los em separado.

Refiro-me aos ajustes que tenho memorizados como Custom shooting modes na minha câmara Canon EOS 7D MkII e que introduzo como configuração inicial para fotografia de aves. Com outras câmara os ajustes seriam diferentes. Conforme as circunstâncias faço pequenas alterações a estas configurações iniciais.

  • Ajustes base para fotografar aves poisadas

Prioridade à abertura Av; Abertura f6.3; Sensibilidade ISO 500; sem compensação de exposição; focagem no ponto central; AI FOCUS; rajada de alta velocidade; medida da exposição matricial; gravação em Raw + Jpeg L.

A escolha da sensibilidade ISO 500 corresponde ao valor máximo que nesta câmara garante grande qualidade de imagem (com a Canon 7D uso ISO 400). Escolho AI FOCUS porque as aves movem-se, os caniços ou os ramos de árvores em que poisam balançam com o vento, etc. Em ONE-SHOT, perdem-se muitas oportunidades.  Como já referi  atrás, foco com o botão * usando o polegar, e disparo com o indicador, usando o botão normal de disparo, que está configurado para não fazer focagem. A exposição matricial parece-me ser a que garante uma exposição mais correcta para o conjunto ave e fundo. Gravando a imagem em Raw posso sempre dispor de uma boa latitude de correcção da exposição a posteriori sem perda apreciável de qualidade.

Arquivo estes ajustes no Custom shoting mode C1.

Quando há muita luz reduzo a sensibilidade. Se quero reduzir a profundidade de foco, para desfocar o fundo, uso uma maior abertura. Se quero aumentar a profundidade de foco, uso uma menor abertura. Conforme a luz do sujeito em relação à iluminação do fundo uso as compensações de exposição que me parecem mais adequadas.

  • Ajustes base para fotografar aves em voo

Prioridade à abertura Av; Abertura f8.0; Sensibilidade ISO 1000; sem compensação de exposição; focagem de área na área central; AI SERVO; rajada de alta velocidade; medida da exposição matricial; gravação em Raw + Jpeg L.

Há quem defenda uma  compensação de exposição de +1 ou +2 diafragmas para corrigir a pouca luz que incide na parte debaixo da ave em voo quando o sol está alto. Eu acho que a única forma de ter fotos bem expostas de aves em voo é fazer as fotos com o sol baixo e posicionado nas nossas costas. Nessas condições, não são necessárias compensações de exposição. Também há quem recomende usar a máxima abertura da objectiva para fotos de aves em voo. Eu penso que, como da ponta de uma asa à ponta da outra asa ou da cabeça à cauda vai alguma distância, é necessário dispor de alguma profundidade de foco. Além disso, um pouco de profundidade de foco a mais pode sempre ajudar a compensar alguma imperfeição na focagem. Adopto a focagem na zona central porque é extremamente eficaz e permite seguir a ave em voo muito mais facilmente do que usando apenas o ponto central. A escolha dos 1000 ISO procura um compromisso entre a necessidade de velocidade e a qualidade da imagem.

Estes ajustes ficam arquivados no Custom shoting mode C2, que escolho como configuração base para fotografar aves em voo.

No Custom shoting mode C3 uso outros ajustes, que variam conforme as circunstâncias, para paisagem, retrato, etc. Nesta posição, não uso rajada e uso o modo de disparo silencioso. É uma boa escolha que também adopto para fotografar aves muito ariscas, como as gangas ou algumas rapaces.

Numa sessão normal de fotografia de aves, começo com C1. Mudo para C2 quando quero fotografar aves em voo ou quando, mesmo com as aves pousadas, há muita acção, combates por exemplo. Os ajustes em C2, que são adequados para fotografia mais rápida, ajudam nestes casos. A mudança de configurações é extremamente rápida. Faz-se em menos de um segundo. Basta rodar um ponto no botão de modos no topo da câmara do lado esquerdo. Se não tivesse estas configurações permanentemente arquivadas, nos Custom shooting modes, estas alterações de configuração demorariam, pelo menos, alguns minutos.

 

3 opiniões sobre “2. Técnica – Como ajustar a câmara”

  1. Antes de mais, permita-me apresentar os meus cumprimentos. Pessoalmente, tenho-me debatido ao longo do tempo com a opção AV/TV (Canon 500D) ao fotografar aves quer em voo ou não. O fotografar aves em voo é bastante complicado, mas, bastante gratificante quando se consegue belíssimas fotos com tão belas formas.
    Ao fotografar um pombo ou mesmo uma gaivota, teimosamente (digo eu) utilizo o modo TV (Canon) com 1/600 e um ISO de 800, depois, ao olhar as fotos, digo para comigo “Bolas, tanto grão”. Acho que ainda não acertei com o modo, ou AV ou TV (Canon) de modo a conseguir boas fotos. Sendo assim, entendo que devo fazer muito terreno.
    Cumprimentos
    João Barreto
    https://www.facebook.com/JBarretoPhotography

    1. Muito bom dia.
      Obrigado pelos seus comentários.
      A escolha entre os modos Av ou Tv (Canon) não é determinante na qualidade da foto. Rodando o botão do lado direito, junto ao disparador, acabamos por obter facilmente os mesmos ajustes em AV ou em Tv. A vantagem do Av é de que se altera directamente aquilo que modifica de facto a imagem porque varia a profundidade de foco. Isto, evidentemente, para alvos parados e com velocidades que garantam que não há perda de qualidade devido ao tremer da câmara e em que a velocidade de disparo já não influencia a imagem.
      Quanto à utilização usual na EOS 500D de ISO 800, quando isso não é necessário por falta de luz, parece-me desaconselhável e pode introduzir ruído (“grão”). Estaria bem esse ISO ou mesmo mais numa 5DMk IV, por exemplo.
      Muitos cumprimentos

      1. Viva
        Obrigado pela resposta.
        A minha opção na escolha do modo TV para captar (registar) uma gaivota/pombo em voo, foi o facto da sua velocidade e, ao utilizar 1/600 avancei para um ISO 800, coisa que não gosto muito por causa desse tal grão.
        Normalmente, utilizo o modo AV para aves no chão, mas, se eventualmente não param quietas, passo para o modo TV 1/500, aliás, utilizei 1/500 em modo TV numa prova de ciclismo.
        Bem, sendo assim está desaconselhado o uso de ISO 800 na Canon 500D, pois, existe máquinas e máquinas, aliás, a minha paixão está na 1D x Mark II.
        Tudo isto porquê, porque já aqui vi belas fotos de aves com uma bela definição, claro que um editor de imagem ajuda, claro que sim, mas… ainda não trato por tu essa coisa chamada editor de imagem.
        Cumprimentos
        João Barreto

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